Alguns discos não passam pela nossa vida, eles ficam. Criam raiz, moldam gosto, atitude e até jeito de enxergar o mundo. Afasia, do Dead Fish, é exatamente isso pra mim. Um álbum que não só me apresentou o hardcore de forma definitiva, mas que também marcou um momento específico da minha vida, daqueles que a memória guarda com nitidez absurda.
Era 2003. Eu ainda estava na escola quando um amigo me emprestou um CD e soltou um simples “ouve isso aqui”. O disco era gravado, sem encarte, com o nome Dead Fish escrito de caneta piloto. Nada de arte, ficha técnica ou contexto. Só o som. Cheguei em casa, sentei na cama, coloquei o microsystem da minha mãe em cima dela e dei play.
Quando começou “as palavras, os discursos, a nova ordem mundial”, eu levei um choque. Não foi só pela velocidade, mas pela urgência. Aquilo vinha com uma verdade crua, direta, sem rodeios. Mesmo já ouvindo bandas como Dead Kennedys, Rancid, Cólera e Ratos de Porão, Afasia bateu diferente. Era como se alguém estivesse dizendo em voz alta coisas que até então eu só sentia, mas não sabia organizar.
Naquela época, ouvir música também era um exercício de paciência e entrega. Eu passava horas escrevendo as letras no caderno da escola, pausando e voltando a música várias vezes. Não existia facilidade, não existia letra pronta a um clique de distância. Existia atenção. Existia escuta. Existia envolvimento.
Com o tempo, ficou claro pra mim que Afasia seria sempre especial. É o meu disco favorito do Dead Fish sem qualquer dúvida. Um álbum que carrega muitos sentimentos ao mesmo tempo. A energia quase incontrolável da faixa-título, o grito de liberdade de “Proprietários do Terceiro Mundo”, que ao vivo sempre provoca aquele frio na espinha, e a carga emocional de “Tango”, que até hoje consegue me desmontar toda vez que escuto.
Agora, 25 anos depois, ver esse disco sendo celebrado ao vivo tem um peso que vai muito além da nostalgia. É perceber que aquelas músicas continuam atuais, necessárias e conectadas com quem está ali na frente do palco. A turnê comemorativa dos 25 anos de Afasia é um reencontro com a própria história do hardcore brasileiro e com a história pessoal de muita gente que cresceu junto com essas canções.

A comemoração chega a São Paulo neste sábado, dia 24 de janeiro de 2025, na Audio. A tour já passou pelo Rio de Janeiro e por Belo Horizonte, segue no dia 23 pelo Rio Grande do Sul e se encerra no Espírito Santo, no dia 31. No show do Rio, a banda tocou por cerca de uma hora e quinze minutos, executando Afasia na íntegra e ainda trazendo músicas importantes de outros álbuns.
Mais do que um show, essa turnê é sobre memória, pertencimento e resistência. Sobre lembrar de quem a gente era, entender quem a gente se tornou e perceber que algumas coisas realmente atravessam o tempo sem perder o sentido. Afasia é uma dessas coisas.
Setlist – Show do Rio de Janeiro
1. Afasia
2. Linear
3. Iceberg
4. Viver
5. Ad infinitum
6. A cura
7. Me ensina (com Gabriel Zander)
8. Revólver
9. No chão
10. Reprogresso
11. Perfect Party
12. Noite
13. Proprietários do terceiro mundo
14. Tango
15. Autonomia
16. A urgência
17. Tão iguais
18. Você
19. Asfalto
20. Dentes amarelos
21. Zero e um
22. Queda livre
23. Sonho médio
24. Bem-vindo ao clube
25. Venceremos
Foto por: Lucas Tavares/Zimel
