Giovanna Moraes: cada disco conta um capítulo de uma trajetória em constante transformação

Quem acompanha a GGG hoje provavelmente associa o nome ao rock, às guitarras e àpersonalidade que ela construiu nos últimos anos. Mas a história da Giovanna Moraes começou muito antes dessa fase.

Foto: Rafael Bonesi

Quando iniciou sua carreira, em 2017, ela ainda buscava entender qual caminho queria seguir artisticamente. MPB, pop, jazz e R&B; fizeram parte desse processo. Mais do que testar sonoridades diferentes, era uma época de descobertas.

Os primeiros trabalhos continuam disponíveis no YouTube e ajudam a mostrar a evolução de uma artista que nunca teve medo de experimentar antes de encontrar a identidade que apresenta hoje.

A virada começou a acontecer quando os shows passaram a fazer parte da rotina. Foi no palco que ela percebeu que a energia das apresentações caminhava naturalmente para o rock. Essa mudança ganhou forma em Para Tomar Coragem (2022).

Desde então, olhar para a discografia da GGG é quase como acompanhar diferentes capítulos da mesma história. Fama de Chata, Tudo Agora e agora Rumo a Tokyo mostram momentos distintos da carreira e da própria Giovanna.

Conversando com a GGG, uma coisa ficou bastante clara: cada disco nasce muito mais do momento que ela está vivendo do que da preocupação em repetir uma fórmula.

“Sou uma pessoa muito movida a desafios e experimentações. Cada disco tem uma proposta, um universo próprio e reflete algo que estou vivendo.”

Essa liberdade criativa também aparece na relação que mantém com quem acompanha seu trabalho.

“Cada lançamento é como começar o trabalho tudo de novo. Tem que botar a mão na massa, reinventar a roda e divulgar até cansar.”

Ela também lida com as críticas de forma muito particular.

“Costumo dizer que sou uma anti pop star.

Depois de quase uma década construindo essa trajetória de forma independente, opróximo capítulo acontece no Rock in Rio, onde apresentará pela primeira vez as músicas de Rumo a Tokyo.

“Dá um frio na barriga pensar nisso. É o maior festival do Brasil e um dos maiores do mundo.”

Mais do que encontrar uma identidade, Giovanna Moraes parece ter encontrado uma maneira de continuar mudando sem deixar de ser ela mesma.

Entrevista | GGG fala ao My Emo Heart

My Emo Heart: Uma coisa que me chamou muito a atenção ouvindo a sua discografia é como cada trabalho parece ter uma identidade própria. Em Fama de Chata, por exemplo, eu sinto um lado mais experimental, tanto na sonoridade quanto na forma como você interpreta as músicas. Já em Seu Jeito Estranho de Amar, eu sinto uma pegada muito mais pop punk, mas que ainda tem muito da Giovanna ali. Você já comentou que gosta de absorver diferentes formas de cantar e interpretar. Quando você começa a escrever um disco novo, ele nasce muito do momento que você está vivendo ou você já pensa: “quero explorar uma estética diferente”, quase como criar um universo próprio para aquele trabalho?

GGG: Sou uma pessoa muito movida a desafios e experimentações. Cada disco tem uma proposta, um universo próprio e sim reflete algo que estou vivendo.

Com o FAMA DE CHATA a brincadeira da vez foi botar o dedo na ferida e assumir/resignificar essa ideia da “chata”. O que me incomoda? O que eu queria falar. E como posso falar do jeito mais “chata” possível. Ele é um disco cheio de ironia e fome para ser ouvido com músicas tipo “As Mina no Poder”, “Bloquinho de Notas” e “Valentina”, que falam de temas importantes, especialmente sobre empoderamento feminino. A ideia também era inspirar outras mulheres a serem as chatas do rolê e assumirem o seu poder.

Já em TUDO AGORA (o disco de 2025) eu já estava passando por uma melancolia – é um disco mais sério e mais sentimental talvez com músicas tipo “Segunda-Feira” e “GGG”. Traz mais da minha vulnerabilidade, sabe? É um disco muito mais intimista, mais reflexivo.

E agora em RUMO A TOKYO (disco a ser lançado setembro 2026), eu falo sobre superação. É uma virada de chave que fala sobre não desistir, ver as coisas com mais leveza e focar menos no passado e mais onde queremos chegar. Eu ousei experimentar mais de outros elementos, eu não abandono o rock, mas com ele eu trouxe sonoridade mais pop e com elementos eletrônicos. A pegada é mais para cima com músicas tipo “Me Vê Na TV”, “Um Milhão e Um” e “Luz”.

My Emo Heart: Uma coisa muito legal de acompanhar na sua carreira é a relação que você construiu com quem te acompanha. Dá para ver que a galera não espera só a música sair. Antes mesmo dos lançamentos já tem gente fazendo vídeo, criando conteúdo e entrando na onda junto com você. Ao mesmo tempo, você nunca parece repetir a fórmula e cada trabalho vem com uma proposta diferente. Ter uma comunidade tão engajada te deixa mais tranquila para experimentar ou ainda bate aquela expectativa de pensar “será que eles vão comprar essa ideia?”

GGG: É muito satisfatório ver a galera curtindo e se engajando com os lançamentos, ajudando a escolher a capa do álbum, participando de trends, me mandando desenhos inspirados na minha arte e torcendo muito por mim. Sou muito grata pela minha comunidade, e me sinto honrada de conhecer tanta gente tão talentosa que curte meu trampo. A expectativa é sempre a mesma, sinto que cada lançamento é como começar o trabalho tudo de novo. Tem que botar a mão na massa, reinventar a roda e divulgar até cansar para chegar em novas pessoas e até na minha galera, é como se nunca tivesse emplacado nenhuma música antes. É um desafio trabalhar com a internet sendo uma artista independente, tem seus altos e baixos mas no fim acho lindo porque fica do jeitinho que eu quero e gosto, sem abrir mão de quem eu sou e da mensagem que eu quero passar.

Lincoln: Uma coisa que eu acho muito forte no seu trabalho é que a sua identidade vai muito além da música. Tem o visual, a forma como você se comunica, a atitude… tudo conversa muito bem. Ao mesmo tempo, isso também desperta reações de todo tipo na internet. Como você enxerga essa construção da sua identidade? Essas reações, até as negativas, acabam virando combustível para criar ou você consegue separar completamente uma coisa da outra?

GGG: Kkkk eu acho que esse é o preço de ser autêntica, tá ligado? De ser contra o padrão. Tem que sustentar as críticas. E tem muitas na internet! Às vezes, na nossa bolha a gente nem percebe, entre os meus, eu me acho super normal kkk, mas trabalhar com a internet me mostrou o quanto nossa sociedade é careta e quanto as pessoas esperam que você siga o molde. Quando você não segue caem em cima com todo tipo de intolerância. Acho escroto, cada um devia cuidar da própria vida. Se não gosta do jeito que eu me visto, é só não se vestir assim, mas a galera espera que eu me vista do jeito que eles aprovam, que eu aja do jeito que eles julgam “certo”. Eu busco ser o oposto disso. Não busco a aprovação, mas ser uma alternativa que eu sou, sabe? Costumo dizer que sou uma anti pop star haha. Às vezes vira combustível para músicas inclusive. Já escrevi várias respostas paras críticas que recebi na internet. Artista faz assim, né? A gente transforma o hate em arte. Quando vejo que algo que eu fiz está causando uma reação negativa e gerando burburinho, sei que estou no caminho certo. Arte e o rock principalmente são também para incomodar. E eu vim para causar justamente isso!

My Emo Heart: Queria terminar falando do Rock in Rio, mas deixando a artista um pouquinho de lado e falando da Giovanna, pessoa física mesmo. Você já fez festivais enormes, mas o Rock in Rio ainda tem um peso diferente para quem faz música no Brasil. Ainda bate aquele pensamento de “caramba, eu vou tocar no Rock in Rio”? Como você imagina que vai estar nos minutos antes de subir naquele palco?

GGG: Hahaha sim! Dá um frio na barriga pensar nisso. É o maior festival do Brasil e um dos maiores do mundo, seria impossível ser tão blasé ao ponto de não sentir nada. Já participei do Lollapalooza, mas sempre é um desafio, né? Estou muito muito empolgada para entregar meu melhor, para meus fãs e também para quem ainda vai conhecer meu trampo por conta do festival. Tamo preparando um show lindo cheio dos hits que todo mundo já conhece e também com as músicas novas do álbum “RUMO A TOKYO”. O RIR vai ser o palco que vamos tocar as músicas pela primeira vez, porque o lançamento vai ser dia 04 e o show dia 05. Então vai ser uma mistura de todas as minhas eras, dando destaque para essa nova fase, sem deixar de contar nossa história. Uma história sobre ser você com força, e nunca aceitar menos. Antes de subir no palco pretendo respirar fundo e me lembrar que eu já sou tudo que tenho que ser, que aquele palco é meu e agora é só me divertir.

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