Vinte e cinco anos após o lançamento de A História Não Tem Fim, conversar com a Nenê Altro é revisitar não apenas um dos discos mais importantes do underground brasileiro, mas também uma trajetória marcada por arte, política, acolhimento e transformação.
Lançado em 2001, o primeiro álbum em português do Dance of Days ajudou a redefinir os caminhos do emocore nacional e se tornou uma referência para toda uma geração de músicos e fãs. Ao longo das últimas duas décadas e meia, suas músicas atravessaram mudanças de cena, tendências e gerações sem perder a força de suas mensagens.
Nesta entrevista exclusiva ao My Emo Heart, Nenê relembra o processo de criação do álbum, fala sobre a decisão de cantar em português, a construção das letras, a importância de Se Essas Paredes Falassem e reflete sobre o legado de uma obra que, 25 anos depois, continua transformando vidas.
1- Antes do Dance of Days, você já vinha de bandas importantes da cena hardcore/punk,como o Personal Choice, e mesmo o primeiro disco do Dance, o Six First Hits, ainda tinha uma linguagem muito ligada ao hardcore emocional dos anos 90, inclusive cantado em inglês. Mas A História Não Tem Fim parece marcar uma mudança muitoforte na identidade da banda tanto nas letras em português quanto na sonoridade, queficou mais crua, emocional e até mais vulnerável em alguns momentos. Como aconteceu essa transformação? Vocês já tinham consciência de que estavam buscando uma identidade diferente naquele disco?
Antes do Personal Choice, eu tive uma banda anarcopunk, entre 1991 e 1992, em que cantava e tocava guitarra, chamada Repulsive. As letras eram em português e muitas já falavam sobresentimentos. No início da Personal Choice, tocávamos várias músicas que vieram do Repulsive e criamos outras novas em português. A transição para o inglês se deu algum tempo depois, com as composições para a demo Mutual Respect, de 1994, e seguiu assim até o álbum Choices, de 1996, que foi o primeiro álbum emocore do Brasil.
Quando a Personal Choice, que era parte de um coletivo anarquista de ação direta, acabou, eujá estava intimamente ativa na movimentação internacional do “the personal is political”, fazia fanzines pessoais e já seguia a linha filosófica do anarco-individualismo, na qual me desenvolviaté os dias de hoje. Então, decidi que não teria mais banda, e sim um projeto em que eupudesse narrar minha vida como um diário, contando com amigos de outras bandas para abrilhantar as composições. Assim nasceu a Dance of Days, lançando um EP de estreia fortemente influenciado pela cena de Washington DC, com um pouco da atmosfera sombria emelódica do TSOL.
O primeiro hiato, de muitos que tivemos, aconteceu em 1998, quando tive dois outros projetos: a Bastard In Love, que deu origem ao Sick Terror, e a Awkward, que apontou a direção da novafase da Dance of Days. Quando decidi retornar com o projeto, em 1999, eu já estava decidida a cantar em português.
Musicalmente, a transformação foi algo natural. Não houve uma busca por um estilo, porque aminha ideia sempre foi fazer um som pós-punk emocional sem regras, muitas vezes influenciado pelo rock dos anos 80 e sem o compromisso de a banda estar vinculada aqualquer cena, inclusive a hardcore. Eu sentia a banda mais no lugar de uma alternativa emocional ao senso comum da fórmula musical daquela geração, como senti com Pela Paz em Todo Mundo, do Cólera, em meados dos anos 80, que me mostrou um lado mais humano do punk, do que relacionada a um rótulo específico.
2- Uma coisa que sempre me chamou atenção no Dance of Days, é a profundidade das letras. Existe muita filosofia, literatura, imagens poéticas e reflexões que eram muitodiferentes do que o punk/hardcore costumava apresentar naquela época. E isso talvez fique ainda mais forte hoje, olhando em retrospecto. Enquanto muita coisa dos anos 2000 estava ligada mais à rebeldia jovem, politica e etc. A História Não Tem Fim parecia carregar uma construção quase literária nas letras. Como foi o processo de criação desse álbum nesse sentido? Você já tinha em mente os temas e referências que queria abordar ou as letras foram surgindo naturalmente durante a construção do disco?
Todo álbum da Dance of Days tem uma narrativa amarrada com começo, meio e fim. Criei esse formato na composição do A História Não Tem Fim e assim segui ao longo dos anos, com exceção do álbum A Dança das Estações, que teve um processo criativo diferente.
Em 1999, compus umas dez músicas e convidei o Verardi, que tocava comigo na Sick Terror, para voltar com a Dance of Days. Ele sugeriu montarmos o time com amigos dele de São Miguel Paulista e assim começamos a ensaiar.
Foi uma época muito divertida e empolgante. Cada música que eu apresentava era um novo universo para aquela formação, e a devolutiva nos arranjos, vinda da mistura com o que costumavam tocar em suas bandas locais, também somou bastante no resultado final. Lembro com muito carinho dos momentos em que mostrei para eles músicas com breaks não convencionais, como Vinde a Mim, e tortíssimas e fora da caixinha, como Carro Bomba. As cinco mais melódicas, que completaram o álbum, vieram de composições que fiz sobre bases criadas em parceria com o Tyello.
Minha intenção com a arte nunca foi fazer somente música, muito menos encontrar um lugar nas prateleiras do entretenimento. A arte, para mim, sempre foi um instrumento de luta política.
Então, não me importava se as letras das músicas ficassem quilométricas ou nada comerciais, difíceis de digerir, desde que a mensagem fosse transmitida com clareza e atingisse seu propósito.
Essa visão artística, somada à escola do punk visceral e esguelado, como a do Minor Threat, por exemplo, foi um divisor de águas entre nós e as bandas da geração seguinte, que já pegaram uma influência mais focada nas melodias harmônicas e bem trabalhadas, pós-Epitaphe Fat Records, e que, com isso, abriram caminhos para a popularidade fora do underground.
3- “Se Essas Paredes Falassem” talvez seja uma das músicas mais fortes e importantes do Dance of Days até hoje. E olhando para 2001, isso ganha um peso ainda maior, porque falar sobre homofobia dentro da cena punk/hardcore naquela época era algo extremamente raro. Mas o que sempre me marcou na música é que ela não soa apenas como uma crítica ou um protesto. A letra carrega o sentimento, a dor e asolidão de alguém vivendo aquilo. Existe uma carga emocional muito humana ali, e talvez seja isso que tenha transformado a música em algo tão importante para tantagente. Quando você escreveu essa música, imaginava que ela teria uma força tão grande e que sua mensagem continuaria atravessando tantos anos dessa forma, se transformando quase em um hino dentro de um cenário que por mais “progressista” ainda é tão machista?
Quando terminamos de compor os arranjos para o álbum A História Não Tem Fim, eu sentia que havia abordado diversos assuntos fundamentais que registravam o momento da minhapercepção filosófica, porém ainda não abria certas câmaras dentro de mim que buscavam respiração. Mas sentia que isso, mais dia, menos dia, teria seu momento.
A pré do álbum estava gravada e nos preparávamos para gravar o disco. Foi quando o Tyello chegou com uma base nova e eu senti uma explosão mental, compondo na hora a linha melódica vocal e abrindo ali, para sempre, um canal poético para expressar minhas questões mais profundas. Assim, sobre a base da melodia de voz que criei, escrevi a letra e nasceu Se Essas Paredes Falassem.
Como a narrativa do álbum já estava amarrada, iniciando com outras questões filosóficas existenciais, e quando ele sobe para outra esfera, ali em Me Leve às Estrelas, o arco também estava amarrado, vista a profundidade da temática, decidi colocá-la para abrir o disco. Talvez, por isso, energeticamente, o álbum carregue o coração como ponto de partida para um mergulho filosófico, o que acabou sendo perfeito para definir o prisma de observação da obra.
Paredes surgiu em uma época em que nem eu estava preparada para lidar abertamente com minhas próprias questões. Então, serviu-me muito de abrigo ao longo dos anos. Enfrentamos muita resistência na própria cena punk e, frente ao estigma que se criou em torno da posturada banda, que chegava aos locais antes mesmo da nossa música, não foram raras as veze sem que nossos shows terminaram em pancadaria e escoltas para fora de cidades.
Mas enfrentamos, resistimos e me orgulho muito de ter criado um ambiente de acolhimento nos shows da Dance of Days, onde as pessoas pudessem se sentir seguras para serem quem são.
4- O Dance of Days tem vários álbuns extremamente importantes, e talvez até discos que tenham alcançado um público maior depois, como A Valsa de Águas Vivas. Mas A História Não Tem Fim parece ocupar um lugar diferente, quase como um ponto de transformação dentro do underground brasileiro. O álbum trouxe letras em português, uma carga emocional muito mais intensa e uma estética musical que expandia os limites do punk/hardcore daquela época. Mesmo mantendo peso e agressividade, existia muito mais sentimento, vulnerabilidade e profundidade tanto nas letras quanto nos instrumentais. E para muita gente, o disco também passou a sensação de que era possível fazer parte daquilo, montar banda, escrever, tocar, criar sua própria voz dentro de algo que antes tão distante. Quando vocês lançaram A História Não Tem Fim, existia alguma percepção de que aquele álbum poderia ter um impacto tão grande assim? Em algum momento vocês perceberam que o disco tinha ultrapassado o lugar de “mais um disco de rock” e acabado mudando a forma como muita gente enxergava a cena?
A Dance of Days, por mais que tenha protagonizado uma revolução nesse sentido que você mencionou, estabeleceu-se em um ponto em que, após o álbum A História Não Tem Fim, rompia demais com a cena em inglês dos anos 90 e era ríspida e dissonante demais para acena melódica que nasceria daquele ponto em diante. Rompia demais com o experimentalismo para uns e era fora da fórmula comercial demais para outros. Então, foi natural que começasse a construir uma comunidade ímpar e muito diversa em torno de si, que agrupa pessoas de diferentes cenas e também de nenhuma delas. E eu acho isso sensacional! Por exemplo, você pega uma música inspirada pelos Descendents, como A Balada do Corcel Verde Velho, mas como classificar como punk melódico um álbum que também tem Corvos do Paraíso, que poderia muito bem ter sido uma música da SickTerror? Ou você pega um post-hardcore insano tipo Swing Kids, como Carro Bomba, que chama o patrão de filha da puta e diz que quer pegá-lo pelo pescoço, e como classificar comoparte de uma cena musical bem mais radical um álbum que também tem Me Leve às Estrelas?
Acho que isso define muito bem o que a Dance of Days se tornou daquele ponto em diante.
Eu cresci ouvindo rock clássico. Creedence Clearwater Revival, Elton John, Bowie, The Who.
Meu pai era muito fã do Queen. E eu achava aquilo maravilhoso, porém absurdamente distante do que eu conseguia tocar na adolescência. O rock nacional dos anos 80 suavizou um pouco isso, porém, com o punk, especialmente quando peguei discos como SUB e Grito Suburbano, tive vontade de montar minha banda, porque o acesso àquele universo parecia muito mais possível. E eu penso que a Dance of Days também tenha causado isso naquelas gerações, porque nunca foi nossa intenção fazer um som virtuoso, e sim sincero. Talvez isso também tenha ocorrido porque cresci em um momento em que o punk e o metal (que trazia uma visão completamente contrária ao punk no lado musical) eram bem divididos, o que não aconteceu com a geração que cresceu com a MTV, por exemplo.
Não foi intencional e nem tínhamos a percepção do impacto que o álbum causaria, apenas seguimos o fluxo natural dos dias. Todavia, eu tenho muito orgulho do que ele se tornou em termos de inspiração musical, mas, principalmente, na ajuda à construção política daquelas gerações.
5- Hoje, 25 anos depois do lançamento de A História Não Tem Fim, muita coisa mudou dentro da cena alternativa brasileira. O underground dos anos 2000 passou por transformações enormes, existiu uma explosão do emo e do hardcore para o mainstream, e depois também uma mudança muito grande no próprio espaço queessas bandas ocupavam culturalmente. Mesmo assim, A História Não Tem Fim continua sendo um disco extremamente vivo para muita gente. E o próprio Dance of Days segue atravessando gerações, ainda fazendo shows e mantendo essa conexão muito forte com o público, inclusive agora com as comemorações de 25 anos do álbum.
O que você sente ao olhar para tudo isso hoje? Como é enxergar um disco que conseguiu ultrapassar tantas mudanças de cena, de mercado e de geração sem perder sua força?
Como disse, o motivo principal de ter criado o projeto Dance of Days foi o de ter um canal artístico pessoal para narrar a minha história de vida. Só de pensar naquele momento, com aquela consciência, lá em 1996, antes mesmo da banda existir oficialmente no ano seguinte, e ver toda a história que se construiu em torno dessa simples escolha de rumo artístico, é algo muito maior e que transcende qualquer conceito palpável de sucesso. Não estamos falando de números, de prêmios ou de mercado, e sim de vidas transformadas. De formações de caráter que ultrapassaram as próprias edificações pessoais e influenciaram nas criações de proles.
Essa é uma grande responsabilidade e, definitivamente, um motivo digno para se ter orgulhode uma carreira. Eu estou na música desde os anos 80, então sempre entendi que as ondas vêm e vão no cenário musical. New Wave, Grunge, acompanhei tudo isso. Então, sempre soube que cada momento é único e deve ser aproveitado com a consciência de sua impermanência.
Particularmente, eu fiquei muito feliz com a popularidade de algumas bandas que nasceram e cresceram ali, nos gargalos dos nossos shows. Isso foi algo novo para mim e senti que um pouco da nossa luz os acompanhava em suas jornadas. E, apesar de, há alguns anos, eu ter decidido sair da cidade e vir morar em uma ilha isolada, optando por uma vida mais tranquila e integrada com a natureza, sabendo que isso alteraria toda a minha rotina artística, faço questão de que a Dance of Days siga na estrada como sempre foi: um templo para abrigar todas as pessoas que se conectam ao chamado do amor. E, na verdade, após o retorno da banda em 2022, tenho sentido que essa nova realidade, com shows mais pontuais, tornou tudo mais especial ainda, tanto para nós quanto para nossas crianças do campo.
No dia em que peguei o primeiro CD de A História Não Tem Fim e o coloquei dentro do primeiro envelope de capa, lançando-o pela Teenager In A Box, que era meu próprio selo, eu sabia que algo muito importante acontecia naquele momento. Só não imaginava que seria tão importante também para milhares de pessoas. Celebrar os 25 anos desse dia, para mim, é algo muito maior do que exaltar um simples momento, mas comemorar a escolha de um rumo para uma jornada que mudou para sempre a história das pessoas que a trilharam.
Para celebrar os 25 anos de A História Não Tem Fim, álbum fundamental na trajetória do Dance of Days e um dos discos mais influentes do underground brasileiro, a banda realiza duas apresentações especiais nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, na Jai Club. Os shows comemorativos prometem revisitar a obra que marcou uma geração e ajudou a redefinir os rumos do hardcore, emo e rock independente nacional.

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