A História Não Tem Fim: 25 anos do disco que transformou o underground brasileiro

Lançado em 2001, o primeiro álbum em português do Dance of Days ajudou a redefinir os caminhos do underground nacional e se tornou uma das obras mais influentes da música alternativa brasileira.

Em 2001, muito antes da explosão emo dominar a MTV brasileira, antes de franjas, comunidades de Orkut e do gênero alcançar o mainstream, o Dance of Days lançava um disco que mudaria silenciosamente a história da cena alternativa nacional.

A História Não Tem Fim não foi apenas um álbum importante para o emocore brasileiro. Ele ajudou a construir a linguagem emocional, estética e cultural de uma geração inteira do underground.

Na época de seu lançamento, a cena punk/hardcore brasileira ainda era extremamente ligada ao espírito DIY. Bandas gravavam discos praticamente sem dinheiro, organizavam shows de forma independente, vendiam CDs na mão e sobreviviam no boca a boca de zines, fóruns, IRC e flyers xerocados. O emocore ainda era um movimento pequeno, distante da popularização que viria anos depois.

E talvez por isso o impacto do álbum tenha sido tão profundo.

O Dance of Days já existia antes de A História Não Tem Fim. O primeiro disco da banda, Six First Hits, é até hoje um clássico cult do underground nacional. Mas ainda era um trabalho totalmente em inglês, muito conectado às raízes do hardcore emocional americano dos anos 90.

Foi em A História Não Tem Fim que o Dance encontrou sua voz definitiva.

A mudança não aconteceu por acaso. Segundo Nenê Altro, a decisão de cantar em português já estava tomada quando a banda retomou suas atividades em 1999, após um período de hiato. Musicalmente, a transformação também aconteceu de forma natural.

Em entrevista ao My Emo Heart, a vocalista explica:

“A minha ideia sempre foi fazer um som pós-punk emocional sem regras.”

Ao cantar em português, a banda deixou de apenas dialogar com referências estrangeiras e passou a construir algo profundamente brasileiro, próximo e identificável. As letras ganharam outro peso. Pela primeira vez, muitos jovens ouviam sentimentos complexos, dores emocionais, exclusão, violência psicológica e questionamentos existenciais sendo cantados na sua própria língua.

E isso fez diferença.

Mais do que um álbum influente, A História Não Tem Fim fazia as pessoas acreditarem que elas também podiam fazer parte daquela cena.

Os músicos da banda eram excelentes. Tyello, Verardi e toda a construção musical do disco mostram isso até hoje, mas existia humanidade ali. O Dance of Days nunca parecia inacessível. Você não sentia distância entre banda e público. Pelo contrário: parecia que a gente podia fazer parte daquilo. Que era possível criar, tocar e construir algo dentro daquela cena.

No intervalo da escola, entre uma aula e outra, os grupinhos que antes se reuniam para tocar Ramones e Nirvana agora tentavam tirar o solo de “Balada do Corcel Verde Velho” nas cordas de nylon de um surrado violão Tonante. E isso talvez diga muito sobre o tamanho do impacto daquele álbum.

O Dance não apenas deu voz para uma geração; ele mostrou que aquela geração podia criar, tocar, escrever e ocupar espaço dentro da cena underground.

Musicalmente, o álbum misturava hardcore melódico, emocore e punk, alternando explosões agressivas e momentos melancólicos. Em muitos aspectos, o disco parecia um embrião do que anos mais tarde seria explorado por bandas ligadas ao screamo brasileiro. Mas talvez sua característica mais revolucionária estivesse nas letras.

Enquanto grande parte da cena punk/hardcore nacional ainda trabalhava com uma linguagem mais direta e agressiva, o Dance of Days trouxe profundidade literária, filosofia, imagens poéticas e uma vulnerabilidade emocional rara para a época.

As letras pareciam mais próximas de fragmentos de literatura do que do formato tradicional do hardcore brasileiro dos anos 90. Existia revolta, mas também existia contemplação, subjetividade e dor humana.

“Se Essas Paredes Falassem”, por exemplo, se tornou um dos maiores hinos da banda e também uma das músicas mais importantes da história do underground brasileiro.

Em 2001, falar sobre homofobia de maneira tão aberta dentro da cena punk/hardcore era algo extremamente raro. Mas o que tornava a música ainda mais forte era justamente o fato dela não soar apenas como protesto. A letra carregava o sentimento, a solidão e a dor de alguém vivendo aquilo.

Durante a entrevista ao My Emo Heart, Nenê revelou que a canção surgiu já na reta final do processo de composição do álbum. Com a pré-produção praticamente concluída, uma nova base apresentada pelo Tyello acabou desencadeando algo inesperado.

“Eu senti uma explosão mental, compondo na hora a linha melódica vocal e abrindo ali, para sempre, um canal poético para expressar minhas questões mais profundas.”

Essa percepção ganha ainda mais força quando se conhece a origem da composição. A própria Nenê conta que a música nasceu em um momento em que ainda enfrentava questões profundamente pessoais.

“Paredes surgiu em uma época em que nem eu estava preparada para lidar abertamente com minhas próprias questões.”

Talvez seja exatamente por isso que a música tenha atravessado tantas gerações.

Ela não apenas denunciava violência e exclusão. Ela humanizava essas dores dentro de uma cena que, muitas vezes, ainda não sabia como lidar com vulnerabilidade emocional.

E isso talvez explique por que A História Não Tem Fim envelheceu tão bem.

Enquanto boa parte da explosão emo dos anos 2000 ficou presa a uma estética específica daquela geração, o álbum do Dance continua relevante porque seu impacto ultrapassa a nostalgia. O disco antecipou discussões emocionais e sociais que só se tornariam mais abertas anos depois dentro da música alternativa brasileira.

Ao mesmo tempo, ele ajudou a construir o terreno para a cena que viria depois. Quando bandas como Fresno, NX Zero, Glória e tantas outras começaram a crescer nacionalmente, já existia uma base emocional e cultural que o Dance of Days havia ajudado a consolidar anos antes.

A História Não Tem Fim funciona quase como uma ponte entre duas gerações do underground brasileiro: carrega o espírito punk/hardcore DIY dos anos 90, mas antecipa a vulnerabilidade emocional e a sensibilidade melódica que marcariam os anos 2000.

Talvez por isso, 25 anos depois, o álbum continue tão vivo.

Mais do que um clássico do emocore brasileiro, A História Não Tem Fim se transformou em um documento emocional de uma geração inteira.

Ao recordar o lançamento do disco pelo selo Teenager In A Box, criado pela própria banda, Nenê Altro relembra que já tinha a sensação de estar colocando algo importante no mundo, mesmo sem imaginar o alcance que aquela obra teria nas décadas seguintes.

“No dia em que peguei o primeiro CD de A História Não Tem Fim e o coloquei dentro do primeiro envelope de capa, lançando-o pela Teenager In A Box, que era meu próprio selo, eu sabia que algo muito importante acontecia naquele momento. Só não imaginava que seria tão importante também para milhares de pessoas.”

Vinte e cinco anos depois, talvez essa seja a melhor forma de entender o legado do álbum. Não apenas como um marco do underground brasileiro, mas como uma obra que ajudou a moldar trajetórias, construir identidades e atravessar gerações.

Como resume a própria Nenê:

“Celebrar os 25 anos desse dia, para mim, é algo muito maior do que exaltar um simples momento, mas comemorar a escolha de um rumo para uma jornada que mudou para sempre a história das pessoas que a trilharam.”

Leia a entrevista completa em: https://myemoheart.com.br/entrevista-nene-altro-historia-nao-tem-fim-25-anos/

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