Todo mundo sabe que no dia 22 de agosto vai ter o ABC Pró HC 22 anos. O festival já faz parte do calendário de quem acompanha a música independente e, depois de duas décadas, o nome por si só já carrega uma história. Mas, afinal, você sabe o que é o ABC Pró HC?

A resposta mais rápida talvez seja: um festival de hardcore. Mas seria pouco para explicar o que foi construído ao longo desses 22 anos.
Para entender o ABC Pró HC, é preciso voltar um pouco antes de 2004, quando Fabiana Couto ainda estava na faculdade e abriu um pequeno bar ao lado da instituição. O lugar se chamava Tropicália e, inicialmente, a ideia era simples: colocar algumas bandas para tocar, atrair mais gente para o bar e vender um pouco mais de cerveja.
Só que os shows acabaram levando Fabiana para muito mais longe do que ela imaginava. Foi ali que ela começou a conhecer de perto as bandas independentes, o punk e toda a cultura que existia ao redor do underground.
Era o começo dos anos 2000, uma época em que a maneira de fazer circular a música independente estava mudando. O punk e o hardcore melódico já tinham uma história consolidada no underground, construída durante anos por meio de cartas, zines, flyers, fitas demo, telefonemas e uma rede de contatos que fazia bandas de diferentes cidades se encontrarem. Ao mesmo tempo, a internet começava a transformar essa comunicação e o emo, o hardcore melódico e outras vertentes ligadas àquela geração começavam a ganhar uma nova dimensão.
No ABC Paulista, esse movimento encontrava uma região que já tinha uma relação histórica com o underground. Desde os anos 1980, o punk havia criado raízes fortes em cidades como Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema. Novas bandas surgiam, novos públicos apareciam e aquela cena começava a viver uma nova fase.
Foi nesse contexto que Fabiana teve a oportunidade de abrir uma casa de shows, o Volkana.

No começo, o espaço recebeu principalmente bandas de metal, metal progressivo e rock. Aos poucos, porém, o punk autoral começou a ganhar espaço. Vieram pequenos festivais, bandas independentes, grupos formados em escolas e um público cada vez mais ligado ao punk, hardcore e hardcore melódico. A casa chegou a receber nomes importantes do underground, como os Garotos Podres.
Os shows passaram a ser conhecidos como Volkana Fest Core e, pouco a pouco, a casa deixou de ser apenas um endereço onde aconteciam apresentações.
O Volkana virou um ponto de encontro.
Para aquela geração, “vou no Volkana” significava muito mais do que simplesmente assistir a uma banda. Era encontrar amigos, conhecer novos grupos, descobrir sons e fazer parte daquela cena. E aconteceu algo ainda mais importante: bandas que circulavam pelo Hangar 110 e por outros espaços importantes de São Paulo também começaram a tocar no ABC.
A molecada que antes precisava sair do ABC para assistir a determinados shows passou a encontrar parte daquele circuito perto de casa. O Volkana começou a trazer para a região bandas nacionais e internacionais que antes exigiam uma viagem até São Paulo.
O movimento cresceu
Em determinado momento, a casa passou a funcionar quase como o Hangar 110 do ABC Paulista. Só que o público aumentava e o espaço começava a ficar pequeno para a própria cena que havia ajudado a construir.
Um dos sinais mais claros disso aconteceu em um show do Dance of Days. A procura foi tão grande que uma única data não comportou todo o público e foi necessário realizar duas apresentações. O Volcana havia chegado ao seu limite.
Foi então que Fabiana percebeu que era hora de levar aquela experiência para um espaço maior e reunir ainda mais bandas.
Nascia o ABC PRÓ HC
A primeira edição aconteceu no Clube Atlético Aramaçan e já mostrava uma característica que acompanharia o festival durante sua trajetória: não existia a ideia de um grande headliner cercado por bandas de abertura. A proposta era colocar a própria cena no centro.
Naquela primeira edição, Dead Fish, Garage Fuzz, Nitrominds e Aditive dividiam o palco com outras dez bandas locais que ainda não eram tão conhecidas. Os nomes maiores ajudavam a levar público, enquanto os grupos menores ganhavam a oportunidade de tocar para pessoas que talvez nunca tivessem ouvido falar deles.
Era uma lógica simples, mas poderosa: usar o alcance de quem já tinha público para criar espaço para quem ainda estava começando.
E o festival cresceu.
A cada edição, o ABC Pró HC ficava maior e acompanhava de perto as bandas que estavam ganhando força na cena. Havia quase uma certeza entre o público: se uma banda estava começando a aparecer, em algum momento ela poderia estar no próximo ABC Pró HC.
NX Zero, Fresno, Dance of Days, Hateen, Dead Fish, Cueio Limão, Envydust, Gloria e muitos outros nomes passaram pelo festival em diferentes momentos.
Foi também durante o grande boom do emo no Brasil que o ABC Pró HC alcançou algumas de suas maiores proporções. Os festivais ficavam cada vez mais cheios e aquilo já não era apenas uma questão de música.
Para uma geração inteira, aquela cena representava comportamento e identidade. As roupas, os cabelos, os piercings, as tatuagens, as músicas e a maneira de se relacionar com outras pessoas faziam parte de uma mesma experiência.
Ir a um festival significava encontrar uma comunidade.
E o ABC Pró HC se tornou um desses lugares de encontro.
O projeto chegou a um ponto em que também começou a receber bandas internacionais. Emery, Rufio, Love Hate Hero e The Used estiveram entre os nomes que passaram pelo festival. A presença desses artistas mostrava o tamanho que aquela iniciativa criada no ABC havia alcançado.
A passagem do The Used, em especial, tornou-se uma das apresentações mais lembradas de toda a história do festival.
Mas o ABC Pró HC nunca ficou limitado ao momento em que o emo estava em alta. Ao longo dos anos, passou por diferentes espaços, como o Clube Atlético Aramaçan, Espaço Lux, Espaço Anchieta e Salão Social do Palestra Itália, reuniu milhares de pessoas e chegou a ultrapassar as fronteiras do ABC, realizando edições em Brasília e Goiânia em 2009.
Em 2008, o festival foi eleito Melhor Festival de Música Independente do Brasil pelo Prêmio Dynamite de Música Independente, reconhecimento que ajudou a consolidar a dimensão que o projeto havia alcançado.
Só que talvez o maior mérito do ABC Pró HC esteja justamente naquilo que aconteceu depois.
Porque cenas mudam. Públicos mudam. Gêneros deixam de estar no centro das atenções. O mercado muda. E um projeto que nasceu em um determinado momento precisa encontrar maneiras de continuar existindo quando aquele momento passa.
Foi nesse processo que o ABC Pró HC deixou de ser apenas um festival.
Hoje, o projeto é um Coletivo Cultural e Ponto de Cultura reconhecido pelo Ministério da Cultura, com a missão de preservar a memória do rock nacional, fortalecer a cultura independente e formar público para as próximas gerações.
A trajetória também transformou Fabiana Couto em uma referência na produção cultural independente. Em 2024, ela recebeu o Prêmio de Reconhecimento Artístico e Cultural do município de São Bernardo do Campo, por meio da Lei Paulo Gustavo, e foi homenageada pela ABRAPROMUS como Personalidade da Música.
Desde 2025, o ABC Pró HC também integra oficialmente o Calendário de Eventos de São Bernardo do Campo, por meio da Lei Municipal nº 7.364/2025.
É uma trajetória curiosa quando colocada em perspectiva.
Tudo começou com um bar ao lado de uma faculdade, onde uma estudante colocou algumas bandas para tocar para vender mais cerveja.
Depois veio uma casa de shows.
A casa virou ponto de encontro.
O ponto de encontro ficou pequeno.
Nasceu um festival.
O festival cresceu, atravessou gerações, recebeu bandas que estavam começando, nomes que se tornaram gigantes e artistas internacionais.
E, 22 anos depois, aquele projeto que nasceu para abrir espaço para bandas independentes se tornou também responsável por preservar a memória da própria cena que ajudou a construir.
É por isso que talvez seja difícil definir o ABC Pró HC apenas como um festival.
É um pedaço da história do underground brasileiro.
É uma parte da memória de quem viveu o underground, não apenas do ABC.

No dia 22 de agosto, essa história ganha mais um capítulo. A 22ª edição acontece na recém-inaugurada Arena Galeria, na cobertura da Galeria do Rock, em São Paulo, reunindo Hevo84, Aditive, No Gabiru, Dakota e Medit, com participação especial de Bruna Sales, ex-Drive-In, e discotecagem da DJ Camila Lysak.
Para quem vai estar lá, será mais uma noite de shows.
Para quem acompanha essa história há duas décadas, será também um reencontro.
E para quem ainda não conhecia o ABC Pró HC, talvez agora a pergunta faça mais sentido:
Todo mundo sabe que vai ter o ABC Pró HC 22 anos. Mas você sabe o que é o ABC Pró HC?
